Life

A moda, a cultura, e o abuso de expressão.

Hoje a Isa vai explicar uma outra moda. Uma moda que é cultural, milenar e atemporal: a moda do estupro e abuso sexual.

A moda, a vestimenta acima de tudo é um propósito para cobrir seu corpo. Por que as pessoas não o fazem para respeitar os outros?

Ontem eu fui uma vítima, pela terceira vez de um tarado em transporte público.

Meu primeiro contato infortuno com tal situação foi em 2009. Estava no trem da Linha Esmeralda em São Paulo, rumo à faculdade – para a sua surpresa – 8 da manhã. O vagão estava quase vazio, tanto que estava sentada num banco ao lado da porta sem ninguém ao meu lado. Um senhor de idade ficou parado em frente à porta em pé, dando a entender que sairia na próxima estação que o trem parasse. Achei peculiar quando ele não desceu, e permaneceu em pé – com tantos lugares vagos.

Quando tive o impulso de olhar para o lado dele, vi que estava com seu membro para fora da calça o acariciando. Achei que era de borracha, achava que era uma daquelas pegadinhas NOJENTAS que passam em programas de grande audiência no final de semana, achei que era brincadeira, achei que era pesadelo. Até que olhei (infelizmente) novamente, e não era mentira. Aquela cena estava acontecendo comigo. Eu tinha 18 anos. Ao ver aquela cena pensei em fazer escândalo, em sair correndo, em tirar uma foto, em ir até aos guardas da estação. O que fiz? Corri assim que pude na estação que ia descer, e verifiquei bem se o tal velho estava por perto. Eu pensei que ninguém acreditaria em mim, afinal, magina, aonde um idoso faria isso? Um pobre velhinho, andando de trem, se sacrificando para se locomover pela cidade?

Deixei passar.

A segunda vez, estava voltando da faculdade lá para as 22:30, pois estava terminando o meu trabalho de conclusão, e em moda, isso significa viver na faculdade e na máquina de costura muitas vezes. Estava com tubo para molde pendurado nas costas, uma calça jeans e uma camiseta sem decote, sem contar da minha GIGANTESCA bolsa cheia de tecidos, tesouras e afins. Não era a pessoa mais sensual do universo. Peguei carona com uma amiga que me deixou num ponto de ônibus próximo à minha casa, que era um pouco escuro, porém movimentado. Estava aguardando o ônibus, quando um carro encostou na calçada. Um celta preto. Meu primeiro instinto foi me afastar, pois alguém poderia sair do carro. Quando isso não aconteceu, achei mais sinistro ainda. O vidro do passageiro se abaixou, e eu me inclinei levemente para ver se era alguém que estava perdido e pediria informação – como eu mesma já fiz diversas vezes, ou já ajudei perdidos no meu bairro assim. Mas para minha tristeza não, havia um jovem no carro se masturbando. Com muito nojo, pensei novamente “tá de brincadeira, né?”.

Fui andando em direção contrária ao sentido da rua, para que o cara não me seguisse, marquei bem as características do carro e peguei o primeiro ônibus que passou. De tão atordoada, perdi o ponto que desceria, e precisei andar um bom pedaço a pé até a minha casa – e claro, morrendo de medo, verificando a cada esquina se o tal carro estava perto.

Ontem, após um dia cheio no trabalho como de costume, fui para casa pela Av. Paulista. Peguei o único ônibus que vai para minha casa, e consegui sentar mesmo com ele lotado. Oba, dei sorte, pensei. Estava de calça preta, com uma camiseta sem decote, uma mochila grande e casacos na mão, sentada. Notei que um moço se aproximou do meu assento, pois estava no corredor, carregando uma sacola e um casaco. Me ofereci para segurar algo que ele estava segurando, ele recusou e agradeceu. Segui minha viagem, ouvindo música, e atenta, pois estava com muita coisa na minha mochila, sempre fico ligada, já fui furtada. Notei que o moço ao meu lado, que se segurava no balaústre à minha frente e no apoio da minha cadeira (me “encurralando”) estava se mexendo de forma suspeita. Quando olhei mais atentamente, ele estava com seu pênis para fora ao meu lado. Achei surreal, pensei “mas DE NOVO?”. Pensei novamente em escândalo, em sair gritando, e até em agressão física como punição do sujeito. Apenas consegui falar um sonoro e ríspido “com licença”, me levantei e fiquei de braços cruzados apoiada no assento encarando o cidadão que se encaminhou para a porta fingindo que nada havia acontecido.

Pensei em descer imediatamente, mas ele desceria comigo, e aí sim, quem garante o que ia acontecer? Então me dirigi ao outro extremo do ônibus, aonde a outra porta só se abriria em outro momento do percurso. Ninguém deve ter entendido nada, mas a pessoa parecia possivelmente alcoolizada, e eu, claramente fragilizada. Desci, esperei outro ônibus para casa, avisei meu namorado do ocorrido, cheguei em casa e chorei desabafando com a minha mãe, tomei banho e dormi mal. Acordei hoje sem vontade de ir até meu trabalho por medo, porém vim, e ainda fui cantada no percurso – por que esse tipo de assédio, não tem limite algum.

É a sensação de um assalto, sabe? Já vi gente ficar machucado, já vi gente reagir e morrer. Por um oportunista. Um estuprador em potencial como esses “tarados” não se difere de um assaltante nesse ponto, é um oportunista. Mas um assaltante quer seus bens, e um estuprador? Seu corpo e sua mente? Como disse a Gabi uma vez, “levar um celular, minha carteira, eu recupero. E meu corpo?”

Será que a sociedade trouxe um padrão de mulher e de beleza tão intangíveis assim, a ponto de homens inseguros com sua sexualidade se sentirem no direito de conseguir a mulher que quiserem de qualquer forma? Atentem-se ao fato de que, em nenhuma das ocasiões eu estava produzida indo para a balada, com roupas “provocantes”, nada do gênero. Jeans e camiseta sem decote. Não tem essa de “mulher com essa roupa tá pedindo pra ser estuprada”, se fosse assim, eu andava coberta e tava tudo bem, certo? Essa cultura de desrespeito vai desde a cantadinha que alguém te deu no trânsito, até o maluco que passa a mão na tua bunda, até o que tenta te beijar a força na balada ou te arrasta pra algum canto e te abusa como quiser. E pior, essa cultura é milenar.

E a mídia? E a encoxadinha no metrô no Zorra Total?

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E o Coronel Jesuíno de Gabriela “deite que vou lhe usar”?

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O Mundano até criticou esse comportamento em um grafiti, mas as pessoas continuam impunes.

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Se eu fosse à uma delegacia, que prova eu teria contra assédio moral e sexual? Nenhuma. Tinha foto, tinha testemunha? Não.

Acho que é essa sensação do proibido, do “impossível” e da impunidade que deve motivar esses caras doentes, não é possível. Já vi relatos de meninas que fizeram escândalo e outras pessoas bateram no cara, ou que elas mesmo partiram para a agressão física, que filmaram e postaram em rede social, ou que nada aconteceu –  o mais comum.

Fiz esse post, por que ao publicar no Facebook meu desabafo, muitas pessoas se sensibilizaram, me mandaram mensagens de apoio mas… nenhuma compartilhou meu post. Salvo meu namorado, e uma amiga, ninguém foi ali e clicou no “share post”. O “share desgraça”.

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Eu fiz esse post principalmente como um alerta, como uma forma de expor como as mulheres não estão seguras. Como essa sensação falsa de que há polícia aqui e ali, ou câmeras, ou mais pessoas não é segurança alguma. Ninguém faz nada. Ninguém quer se arriscar.

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Me perguntaram “por que não deu escândalo?” porque eu estava sozinha, e continuaria sozinha com um cara desses por aí com um motivo a mais para se revoltar e fazer o que quiser comigo.

Vale spray de pimenta, vale faca butterfly, vale o que for. Mas acima de tudo, vale se proteger e saber que a culpa não é minha nem tua, e se proteger, sempre.

Agradeço TODO o apoio e TODAS as mensagens, mas agradeço mais ainda se vocês compartilharem isso e ajudarem um pouco que seja a conscientizar as pessoas dessa “moda” doentia que anda por aí.

A continuação você confere aqui com o psicólogo Bruno Amaral, e a Gabi também deu seu ponto de vista!

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19 thoughts on “A moda, a cultura, e o abuso de expressão.

  1. Sofri algo parecido esses dias. Um cara me agarrou no meio de várias outras pessoas e mesmo eu lutando pra me soltar, ninguém fez nada. Um ser nojento tentando enfiar a língua na minha boca, da forma mais repulsiva possível. Ajuda nenhuma, apoio nenhum, tudo normal, todo mundo parado assistindo.
    Fiz até um post no facebook, e ai vieram me falar que eu “estava revoltadinha por algo nem tão importante”. Apaguei, pra não ter que lidar com esse tipo de gente.
    Tenho medo de sair sozinha, de ser violentada, de ninguém me ajudar. Não é a primeira vez, já me machucaram em festas me segurando e tentando me beijar a força. O pior é saber que não sou a única, nem somos poucas.
    Tenho medo, e nem sei até quando terei.

    1. Amanda, infelizmente isso precisa acabar mas não sabemos nem por onde começar. É essencial que vc se proteja, e sinto muito por que vc passou por isso. É algo assustador mesmo, e vc tá no seu direito de se reservar. Força! ❤

      1. Exatamente, não sabemos por onde começar.
        Também sinto muito por você. É horrível e não dá pra entender o que se passa na cabeça desse tipo de gente. Força pra nós. ❤

  2. Engraçado que em duas vezes que senti alguém tentando me dar uma encoxada (no ônibus e no metrô) eram homens de uma certa idade. Na primeira vez em que isso aconteceu, até achei que ele estava perdendo o equilíbrio e ofereci meu lugar, onde ele poderia segurar no banco e não na barra alta. Ele recusou, eu desconfiei. Mudei de lugar, ele foi atrás. Comecei a cotovelar, e aí a senhora que estava sentada no banco à minha frente percebeu e começou a olhar feio para ele. Ele saiu. Da outra vez, estava tão lotado que não tive nem como mudar de lugar. Tentei empurrar, me esquivar, mas no fim desci do metrô chorando… Meu namorado, que estava me esperando na catraca, não entendeu nada. Quando contei o que aconteceu, ele sugeriu que eu evitasse pegar o metrô naquele horário. Pois é… É difícil pros homens entenderem como é isso, pelo menos de imediato. É a pior sensação do mundo…

  3. vocês já assistiram Cairo 678? Creio que todas vão se identificar com as personagens. Uma delas, cansada de ser assediada no transporte público, começa a se defender dos homens com uma espécie de faca. Depois da notícia dos “ataques”, os homens ficam amedrontados e passam (momentaneamente) a não assediar. Esse ano, depois de algumas matérias na mídia ocasionadas por denúncias de assédio no transporte público, surgiu um certo debate sobre o assunto, até me empolguei.Contudo, a oportunidade não foi aproveitada, nenhuma medida efetiva foi tomada e o tema assédio foi novamente relegado. Será que como a personagem de Cairo 678 teremos que chegar ao ponto de usar a “violência” para chamar atenção da sociedade e responsáveis por esse pesadelo pelo qual passamos todos os dias?

    1. Oi Bia! Não conhecia, só vi alguns docs sobre Ciudad Juarez, que é a pior cidade do mundo em relação à violência à mulher. Me foi questionado isso no Facebook, “anda com faca, spray de pimenta, castra o cara”. Mas o pior é essa cultura que fabrica novos estupradores a cada minuto, e isso é ok. Afinal, mulher que é o sexo frágil e nós que lidemos com isso, né? Tá anotada a tua dica! Obrigada pelo comentário 🙂

  4. Eu sinto muito, MUITO MESMO que isso tenha acontecido com você. Infelizmente também já aconteceu comigo e certamente com mais inúmeras mulheres.
    Espero que, em breve, possamos viver mais dignamente, como mulheres.

  5. Mas é incrível que ainda existam lixos que infelizmente pertencem ao meu gênero – e eles ainda querem ser chamados de homens. Pra mim, homem que não sabe se segurar, e se aproveita de quem eles acham que não pode se defender, não merece ser chamado de homem.

    1. Infelizmente Leandro, é o que acontece. Até um amigo meu comentou, que se ele pede informação à uma mulher em local público, elas não interagem de medo de algo acontecer, chegou a esse ponto essa invasão toda.

      1. Isa, até eu, sempre que vou a São Paulo a trabalho e dependo de transporte público, fico com medo de perguntar qualquer coisa pra não ser confundido com um tarado. E ainda tenho que manter distância dentro dos modais para não ouvir de graça.

        E elas têm razão, porque a falta de noção de alguns ditos cidadãos acabou por criar nelas um padrão de comportamento no menor caso de assédio da parte deles :/.

  6. Eu estava pra escrever algo nesse sentido e acabei não fazendo.
    Moro no RJ e aqui não é diferente. Eu sei de inúmeros casos como esse e ando pesquisando os valores de Spray de Pimenta e “lanterna de choque”.
    O pior é que gera na gente a constante sensação de medo, de impotência. Eu fico com muita raiva quando leio relatos como o seu. Fico pensando que isso nunca vai ter uma solução, que eu queria mesmo ir embora dessa cidade, país, planeta…
    Sinto muito pelo que te aconteceu. Espero que um dia tenhamos paz

  7. Infelizmente passei por isso hoje. Uma da tarde chovendo,parei pra amarrar meu tênis e parou um carro pedindo informação, perguntou sobre um clube e disse que não sabia onde era e ele começou a fazer várias perguntas sobre mim, quando parei pra reparar ele estava se masturbando. Quando vi sai andando bem rápido sempre olhando pra trás com medo dele voltar e fazer algo pior.

    1. oi Thaís, é difícil mesmo. Os caras se aproveitam de toda e qualquer oportunidade. Não tem hora, contexto, explicação. Só esse desrespeito que eles fazem conosco.
      Força!
      E obrigada por comentar!

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