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A moda exibicionista e o crime.

Gente, como muitos de vocês viram no meu último post, sofri um caso de assédio moral em público, e agradeço IMENSAMENTE toda a divulgação e apoio que tive de cada leitor, obrigada! A meu convite, o Bruno Amaral, psicólogo e meu melhor amigo, além de ter se mostrado super solícito em me ajudar – não só com essa dificuldade – aceitou minha proposta de dar uma visão clínica sobre o assunto, segue seu texto na íntegra:

”            Tentar entender a mente ou comportamento humano é um desafio para psicólogos e psiquiatras. Embora tenhamos muitas teorias e embasamentos empíricos, cada indivíduo se relaciona com o meio de forma diferente e consequentemente, pensa diferente. Quando vamos falar sobre um tipo de patologia ou personalidade, é importante ressaltar que estamos falando de uma forma geral. Também ressalto que, a psicologia é uma ciência subjetiva e construtivista, por isso que o processo terapêutico leva um tempo indeterminado para conclusão e é duradouro. Precisamos entender as peculiaridades de cada indivíduo e suas motivações.

O estupro ainda não é considerado uma psicopatologia reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e não tem um CID (Classificação Internacional das Doenças, criada pela OMS) determinado para o diagnóstico. Essa discussão é calorosa no meio médico, social e psicológico. A nova edição do DSM (O DSM é o manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais da academia americana, propõe uma maneira de dar os diagnósticos em psiquiatria através de um conjunto de sintomas-chave de cada doença, além de classificar, agrupar e codificar cada patologia, estando hoje em sua quinta edição) não considera estupro como doença e sim, crime. Entretanto, psicanalistas e cognitivistas caracterizam o estuprador como perverso e/ou psicótico, sendo essa a estrutura psíquica de tal indivíduo. A perversão ocorre quando um indivíduo sente prazer em causar dor ou destruição de algo. O estuprador sente prazer em estar na posição de controle, e quanto mais a vítima peça que ele pare, ou quando ela resiste ao ato, ele se sente mais motivado a continuar. A questão da psicose ocorre, pois o indivíduo não atende a regras e normas de determinada cultura/sociedade e não sente remorso pelo seu ato. Esses dados foram coletados através de observações clínicas, o estudo específico do estupro, e sua conclusão científica, ainda estão em processo de reconhecimento empírico. Mesmo ainda sem ter incluído um diagnóstico específico psicopatológico, a OMS entende que, “o abuso sexual e o estupro são fenômenos trágicos e dolorosos que integram a vida diária da maioria das sociedades atuais” (OMS, 2005). O agressor utiliza este ato violento como uma forma de descarregar tensão, a agressividade ou o sadismo sobre uma vítima que não pode lhe oferecer resistência. A maioria das vítimas são mulheres adolescentes ou jovens, sendo os agressores às vezes homens conhecidos das vítimas, ou parentes (pais, padrastos, tios, etc.). Durante o estupro, a vítima geralmente sente grande medo e pânico, podendo experimentar “estado de choque”. Dias a meses depois, a vítima pode sentir-se muito envergonhada, deprimida, humilhada, com raiva e medo. Estudos recentes indicam forte relação entre ter sofrido abuso sexual na infância e transtornos da conduta na adolescência e transtornos da personalidade (Borderline ou histriônica, em especial), depressão, transtornos da alimentação e abuso de substâncias na vida adulta (Charam, 1997).  O estuprador, pode também ter sofrido algum tipo de trauma na infância, devido ao abuso sexual.

O caso relatado pela Isa, neste blog, entretanto, trata-se de um indivíduo exibicionista. O exibicionismo é definido como: “Uma tendência recorrente ou persistente a expor a genitália a estranhos (usualmente do sexo oposto) ou a pessoas em públicos, sem convite ou pretensão de contato mais íntimo. Há usual, mas não invariavelmente, excitação sexual quando da exposição e o ato é comumente seguido de masturbação. Essa tendência pode ser manifestada em períodos de estresse ou crises emocionais, entremeada com longos períodos sem tal comportamento patente” (CID-10, F65.2). O estupro pode não ser uma doença psicopatológica como previamente discutido, mas o exibicionismo é um caso de transtorno mental, reconhecido pela OMS, como descrito acima. Esse tipo de diagnóstico é pouco comum pois muitos indivíduos que sofrem disso, muitas vezes não reconhecem tal transtorno. Este grupo de pessoas são quase inteiramente limitado a homens heterossexuais que se exibem para mulheres adultas ou adolescentes, usualmente defrontando-as à distância segura, em algum local público. Para alguns, o exibicionismo é sua única atividade sexual, mas outros mantêm o hábito simultaneamente a uma vida sexual ativa e dentro de relacionamentos duradouros. Se há conflitos neste relacionamento, os atos de exibicionismo tornam-se mais prementes. A maior parte dos exibicionistas considera seus atos difíceis de controlar e alheios ao próprio ego. Se a pessoa para quem ele se exibe parece chocada, assustada ou impressionada, a excitação do exibicionista é frequentemente intensificada. Todo comportamento humano é emitido à espera de uma reação. Se um indivíduo se comporta de tal maneira é porque houve a resposta esperada. Neste caso, quando a vítima se demonstra chocada, assustada ou impressionada, essas respostas são as esperadas pelo exibicionista, reforçando seu comportamento, aumento a probabilidade dele se comportar dessa forma futuramente, pois ele terá cada vez mais certeza de que as vítimas vão reagir dessa forma.

É difícil prever nossas ações quando nos deparamos com esse indivíduo. Pessoalmente, creio que a ação da Isa foi a mais correta. Se afastar e permanecer aonde o movimento de pessoas é maior. Se formos confrontar tais indivíduos, não sabemos o que ele pode fazer. Se houver um posto policial por perto, é importante efetuar uma queixa, pois esse indivíduo pode retornar ao local com frequência. O choque inicial da vítima é intenso e pode durar por alguns dias e se ela estiver mais em um estado mais frágil, os sintomas de medo, choque e impotência podem se propagar por mais tempo. É importante retomar a rotina e enfrentar o medo. Procure apoio na família e amigos, compartilhe seus sentimentos e sua experiência, pois assim, fica mais fácil de aceitar o ocorrido e o acesso a um grupo próximo de apoio, pode aumentar o sentimento de segurança. Se você passou por um episódio mais traumático, ou se passou por algum há algumas semanas e ainda sente impotente ou com medo, não se sinta acuada a procurar ajuda profissional. Não há nada a se envergonhar por buscar melhora e força emocional, você não é fraca por fazê-lo e sim, forte por admitir que precisa de um espaço seguro e ajuda devida.

Espero que através desse texto, eu possa ter esclarecido eventuais dúvidas sobre tais temas e queria agradecer a Isa pelo convite e o espaço.”

Bruno Amaral, CRP 06/122.123.

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